Foi a primeira coisa que se me ocorreu quando os meus olhos bateram nesta "notícia". A sério que estamos mesmo a pedir às pessoas que comentem, em praça pública, o corpo de alguém? Comecemos do princípio, que isto tem algum contexto. Parvo, mas tem algum contexto. Então, ao que parece, no Passadeira Vermelha - programa que, ultimamente, parece servir exclusivamente para os seus comentadores destilarem os seus ódios pessoais - a Luísa Castel-Branco sugeriu que a Sofia Ribeiro estava demasiado gorda e que o vestido que estava a usar num qualquer evento "ficava bem a alguém com metade do peso que ela tem". Claro que a Sofia Ribeiro não se deixou, e bem, ficar calada, e veio dizer que tem 60 quilos, se pesasse metade era um bocado estranho. E, vá, pouco saudável.
A Luísa Castel-Branco atingiu um estatuto que eu adorava atingir mas para o qual caminho a passos largos: o de ter idade para poder debitar todas as tontices que me vêm à cabeça sem que seja desancada por isso. Fosse uma pessoa mais nova a tecer comentários do género e era só mal-educada ou com falta de bom senso. Como tem mais de 60 anos, acha-se só que diz umas coisas assim meio exóticas e tudo se lhe perdoa. Incluindo a total falta de filtro. É mais ou menos como aquelas pessoas que usam a "frontalidade" como desculpa para tudo. "Ai, eu sou muito frontal, digo tudo o que penso, ou me amam ou me odeiam". Não pessoas, regra geral isso é só má criação e falta de umas boas palmadas em criança. Mas adiante.
Vai que para surfar a onda de mediatismo que este caso teve, a TV Guia achou que era uma ideia esperta lançar a pergunta "diga a verdade: acha que Sofia Ribeiro está "gorda"?". Para já, porque é que a palavra "gorda" está entre aspas? Se fosse magra também vinha entre aspas? É uma pergunta, objectiva, a TV Guia quer saber se a rapariga está gorda, por isso não percebo as aspas. Deve ser só para a pergunta parecer mais softzinha e menos estúpida do que é na realidade. Depois... o que é que interessa o que o mundo acha sobre a gordura ou não gordura da Sofia Ribeiro? E o que é que vamos fazer com as respostas? Vamos chegar a alguma conclusão com base no que centenas de gente tem a dizer sobre o tema? Vamos desenvolver um estudo sociológico? E depois enviá-lo à Sofia Ribeiro, para que ela decida se deve emagrecer ou ganhar peso conforme aquilo que o povo acha? Adorei, sobretudo, o "diga a verdade", não fosse o leitor atrever-se a escrever algo contrário àquilo que realmente pensa. Nada disso, as TV Guias desta vida pautam-se pelos mais elevados valores de rigor, exigência e transparência, por isso que nem vos passe pela cabeça mentir: a Sofia Ribeiro está gorda ou não está gorda? Hã? Não me atrevi a abrir a caixa de comentários, há coisas às quais já me vou poupando, mas deviam ser pérolas e pérolas de sabedoria, bom senso e sensibilidade.
Pela Nossa Senhora do Discernimento, deixem as pessoas descansadas, não fomentem discussões estéreis e quase insultuosas como esta. A seguir vai ser o quê? Os níveis de ridículo a que o "jornalismo" (esta sim, palavra que merece aspas) está a chegar para conseguir cliques é de deixar qualquer um indisposto. Ou então dá para rir. A mim já só me dá para isso. No outro dia era o Observador, que contactou a Carolina Patrocínio para que esta comentasse o bronze da filha. A sério? Mesmo a sério? A facilidade com que se geram não-notícias é uma coisa que me aflige, mesmo. Já falei sobre isso aqui, o medo que peguem em qualquer merdinha que a pessoa diga, escreva, faça ou fotografe para transformar isso no caso do dia. É raro o dia em que não deixo de seguir um qualquer site ou publicação à conta de coisas destas e, pelo caminho que isto leva, não tarda já não vou ter nada para ler. Temos pena (ou não), mas ganha-se em sanidade mental.