Acordei e a minha vontade de ir correr era mais ou menos a mesma de comer um prato de iscas com cebolada. Na verdade, agora que penso nisso, acho que mais depressa despachava as iscas, que ao menos não precisava de sair de casa. Mas comecei a pensar que era uma fraca, uma ratazana de esgoto sem força de vontade, que ontem até tinha comido algumas porcarias, que tinha de mexer o rabo, e então lá fui. Lembrei-me que tinha de ir votar, então juntei o útil ao (des)agradável e decidi ir até lá a correr. Assim foi. Ténis nos pés, faço-me à estrada e eis que chego ao sítio onde voto sempre e estava fechado. Bonito. Não tinha como saber onde era o novo sítio por isso deixei as eleições para mais tarde e continuei a correr. Andei pelo Rossio, pelos Restauradores, pelo jardim do Príncipe Real, pelo de São Pedro de Alcântara e, a cereja no topo do bolo, desci e subi a avenida da Liberdade TO-DA. Já tinha corrido no centro da cidade em provas, mas nunca assim, à vontade, a decidir o percurso na hora. Enerva-me correr sempre nos mesmos sítios, porque às tantas já tenho perfeita noção da distância. Ir assim à aventura é mais giro. O meu objectivo para hoje era correr mais de 8km, para ultrapassar os 200 totais já corridos. Está certo que 200km é uma merda (o meu homem já percorreu mais de 2000), mas para mim é uma coisa assim épica. Cheguei a casa toda contente, parecia que tinha corrido uma maratona. E fiquei sobretudo feliz por não ter cedido à vontade de ficar na cama. Só custa mesmo decidir que se vai, depois é espectacular.
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